A síndrome do Gênio da Lâmpada

Em tempos de pesquisas rápidas no Google e de verdades absolutas que logo se tornam obsoletas, está cada vez mais difícil construir uma comunicação assertiva – aquela que vai além de informações desconexas e ideias vazias, despertando assim pouca ou quase nenhuma empatia naqueles a quem é endereçada. Mais do que A SOLUÇÃO que vai revolucionar a forma como se comunicam com os seus públicos, as marcas utopicamente exigem SOLUÇÕES que vão revolucionar a forma como se comunicam com os seus públicos (isso mesmo, no plural). E com um adendo: querem isso da noite para o dia, num piscar de olhos, num estalar de dedos.


Como os olhos não piscam e os dedos não estalam assim de maneira tão rápida quando o papo é comunicação (se disserem que piscam ou estalam, trate logo de desconfiar), vale dar uma pausa na correria que paralisa a criatividade das agências e departamentos de comunicação para ressaltar algo importante: as marcas não precisam de gênios de lâmpada – até porque esses personagens do folclore árabe são imaginários e só podem atender três desejos, muito pouco para quem precisa construir diálogos sinceros no decorrer de sua longa jornada.   

É tempo de valorizar quem não desvaloriza a sua marca, isto é, quem não abre mão de ouvir os seus funcionários, mergulhar nas reais necessidades dos seus prospects, nos verdadeiros anseios dos seus clientes; que querem conhecer a sua história e compreender seus grandes objetivos antes de apontar qualquer fórmula mágica para a sua comunicação. Ou até mesmo antes de afirmar que a mensagem A é melhor do que a mensagem B. Antes de aplicar uma metodologia X ou Y, que vai fazer a sua marca dar voltas em torno dela mesma até descobrir que não saiu do lugar, que investiu tempo e dinheiro para não colher resultados palpáveis.  

Aqui vale um parêntese para lembrar o que o escritor norte-americano Steven Johnson trouxe em seu livro “Where the Good Ideas Come From” (“De Onde Vêm as Boas Ideias”, lançado no Brasil em 2011). Após se debruçar e analisar grandes invenções dos últimos 700 anos, dentre elas a teoria darwinista e o surgimento da web, ele conseguiu traçar padrões da inovação. Além de constatar que boas ideias não caem no céu na mente de gênios solitários, cujo processo criativo exigiu prévio esforço mental e/ou físico, ele chegou à conclusão que elas são frutos de redes de conexões. Ou seja, as melhores ideias são resultado de um processo lento e evolucionário, são criações coletivas e que necessitam de tempo para serem construídas.

Se foi assim para a teoria darwinista e para a web, por exemplo, por que seria diferente com a comunicação? Acha mesmo que é possível colocar a comunicação em uma linha de produção desenfreada, como acontece em pastelarias? Se a sua resposta é sim, cuidado! Você pode estar mergulhado em uma grande cilada. Você até pode ir em frente e usar todo o seu budget para comprar esses tais pastéis quentinhos, resolvendo questões pontuais. Entretanto, alguma coisa nos diz que o máximo que vai conseguir com eles é uma boa indigestão, já que não terá planejado a construção de uma grande história, de um sentido real para que o público alvo possa atribuir à sua marca. Então, acompanha vinagrete? 

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