Abra-se para o mundo

Morro de medo de gente que não sabe assumir um erro. Esse é um mal que não para por aí. Contagia outras pessoas e vai evoluindo para uma falta de paciência acentuada com gritos e ataques de irritabilidade por coisas banais. Dizem que esses sintomas normalmente chegam junto a promoções, o que devo concluir que é muito perigoso chegar a cargos de liderança; tamanha são as ameaças que o sujeito estará submetido.

Concordo com você que pensou: “Ah! Mas com o aumento salarial, eu correria esses riscos”. Realmente é muito tentador todos os benefícios em folha e os outros oriundos do crachá com uma posição mais alta que os demais. Contudo, muitos que chegaram lá estão fazendo o caminho contrário. Vocês já se perguntaram por quê? Não é de hoje que revistas e jornais trazem matérias sobre executivos que largaram tudo e foram viver de meditação em uma comunidade de pessoas que também cansaram da vida na cidade urbana.

O CEO da Tesla, Elon Musk não precisou aplicar o plano B da vida, pelo menos por enquanto. Ao contrário disso, ele deu uma lição de liderança. Depois de receber um relatório que mostrava um aumento dos casos de acidentes no trabalho, ele escreveu um e-mail e enviou a todos os colaboradores. Além de admitir que errou, Musk ainda demonstra verdadeiro interesse em solucionar o problema.

 

Uma parte do e-mail que merece destaque é “eu pedi que qualquer acidente desse tipo fosse reportado diretamente a mim, sem exceção”, ou seja, o CEO transmite confiança e respeito com o time. Mais que isso, mostra que ele se importa.

 

E é exatamente este o cerne da questão: importar-se com o outro. Ou como o pesquisador da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Robert Waldinger preferiu denominar “conectar-se”. Ele dedicou 76 anos em uma pesquisa afim de buscar a resposta para a pergunta “O que realmente nos faz felizes?” e a primeira da lista é estar conectados uns com os outros. Os que viveram desta maneira durante estes longos anos tiveram corpo e cérebro saudáveis por mais tempo.

Contudo, vamos no sentido oposto. Corremos o tempo inteiro de um lado para o outro para dar conta do recado. Mas nunca refletimos para aonde estamos indo e quais os objetivos que queremos alcançar nesse emaranhado de informações inúteis. Sim, a gente lê todos os dias como deveríamos ser, para aonde devemos ir nas férias, o que comer para ser mais produtivo, músicas para turbinar o seu dia. Conclusão: estamos no limite de nossas forças.

E como era de se esperar, essa é a explicação de muitos profissionais estarem tomando medidas drásticas para não ter sua passagem na terra de modo superficial, fútil e sem graça. Claro que para o mercado, esse cenário é apenas mais uma oportunidade se desnudando para novas maneiras de ganhar dinheiro. Com isso, surgem soluções que prometem aliviar essas dores, são SPAs, restaurantes de comidas saudáveis, refúgios sociais para amenizar os impactos de tantas cobranças, expectativas e, na mesma proporção, frustrações.

Eu não entendo quais motivações alguns líderes têm em sair de casa todos os dias para trabalhar não agregar na vida do time em nada. No primeiro sinal de problema (que acontece todos os dias e muitas vezes ao dia), o cidadão já desestabiliza toda equipe com gritos, ameaças e broncas desproporcionais, ao invés de focar energias para solucionar o mais rápido possível.

A revista Você SA de setembro traz uma matéria de capa com o título “O seu trabalho te deixa deprimido?”. A reportagem traz relatos de profissionais que adoeceram por trabalhar em ambientes com chefes tóxicos. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) apontam para um aumento no número de pessoas com depressão, em 2015, 322 milhões de pessoas sofriam de depressão ao redor do mundo. Somos o país campeão da América Latina com cerca de 5,8% da população com a doença.  E a tendência é piorar. Ainda de acordo com a OMS, até 2020 o transtorno mental será a enfermidade mais incapacitante mundialmente. Hoje, já representa a terceira causa de afastamento no trabalho. Mais de 17 mil casos de concessão de auxílio-doença e da aposentadoria por invalidez foram registrados entre 2012 e 2016. O dado é do Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade, divulgado pelo Governo Federal.

Esses números podem parecer assustadores, mas você leitor, certamente conhece alguém que passou ou que está passando por esta situação. E os gráficos registram aumentos ano a ano justamente num período em que as empresas estão anunciando em todos os canais o quanto se preocupam com pessoas.

 

Se continuarmos assim, até 2025 será que haverá um êxodo de profissionais para o alto das montanhas em busca de qualidade de vida?

 

Talvez seja realmente válido voltar a ter uma rotina em passos curtos e mais lentos. Não sei se a gente conquistou a maturidade suficiente para lidar com tantas coisas ao mesmo tempo. Estou desconfiada que o animal humano precisa mesmo colocar o pé na areia, apreciar o pôr do sol, banhar-se na água salgada do mar e aproveitar ao máximo das relações. O sucesso profissional que era o objetivo da maioria dos estudantes universitários tem o preço muito alto: a saúde das pessoas.

Veja como é contraditória essa história de modernização, autonomia e independência. Temos celulares modernos, que a cada dia nos aprisionam e nos afastam de pessoas; ganhamos voz, mas nos calamos; temos contato com o mundo e, por outro lado, não conhecemos o bairro em que vivemos; temos mapas que nos mostram várias possibilidades, mas preferimos passar horas vendo seriados.

Por outro lado, hoje, a tecnologia proporcionou agilidade para os departamentos que cuidam de gente nas empresas. Ou seja, relatórios que mostram quantas vezes os funcionários se ausentaram para ir ao médico, quais as áreas que isso mais tem acontecido, quantas horas extras os funcionários estão fazendo surgem na tela do computador como um passe de mágica. A atitude do CEO da Tesla está exatamente em transformar estas informações em atitudes reais; e em resultados para a empresa, claro!

Esse texto tem o propósito de fazer com que vocês reflitam na hora de escrever as resoluções para 2018, especialmente por ser um ano eleitoral. Ou seja, esqueça um pouco as redes sociais e vá ao encontro dos partidos para entender qual seria a melhor opção para o país. Assim, você evitará passar o ano inteiro postando sua insatisfação com o governo. Ao invés de dar like nos posts com fotos de paisagem, bichinhos e comidas, vá por aí descobrindo com os seus próprios pés novas possibilidades, lugares e pessoas.

A minha sugestão é: comece a viver hoje. O ano novo será apenas uma mudança de folha no calendário se você não mudar!

 

 

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