Res-pei-to

A maneira como colocamos fim nas coisas diz muito sobre o que elas significaram para gente.

Está na moda a palavra. A gente a vê bastante colada nas paredes de empresas como valores destas. Vemos essa palavra também na indignação das pessoas quando alguém faz pouco caso. É bonito dizer, né. “Eu respeito, eu te respeito..." traz um certo sentimento de benfeitoria para gente. Nós respeitamos, somos boas pessoas por isso.

Acho válido aproveitarmos o fim de ano e todo esse clima de revisão e planejamento de vida para tirarmos um tempinho e pensarmos sobre ele, o tal respeito.  De cara, a gente já pode começar reforçando que respeito não é um mantra para ficarmos repetindo a torto e a direito. Aliás, não é nem uma palavra que age sozinha. Para respeitar, antes de tudo é preciso considerar que há uma outra parte nessa história: conhecer o outro, tomar consciência da existência desse outro.

Bom, vamos lá. Para não nos perdermos em devaneios, comecemos do início, redundantemente. Quando digo que a palavra respeito está na moda, a minha intenção é passar um pouco de ironia aqui. O discurso está em voga, a ação por sua vez é completamente contrária. 

Parece que nos esquecemos de como respeitar. Descartamos tudo e todos muito fácil. As relações estão se baseando em algo perigosamente estranho. Bauman, o genialíssimo sociólogo polonês, nos deixou um legado incrível, por meio de suas obras, versando sobre a liquidez do nosso tempo. Sobre como nos habituamos a usar as pessoas, e o que elas têm para nos ofertar, e depois descartá-las. Tem ficado fácil demais nos desfazermos do outro. Aparentemente não dói, não nos sentimos mal por isso, não nos envergonhamos.

Perdemos o respeito pela história que vivemos, pelo o tempo doado pelo outro, pela relação que vinha sendo construída. 

Resgatando o que eu vinha dizendo algumas linhas acima, a gente precisa voltar a reconhecer o outro. Emmanuel Lévinas, outra mente brilhante – desta vez vinda da Lituânia -, escreveu sobre a necessidade de considerarmos o outro. Que este Outro tem um rosto que precisamos ver. Entenda que aqui ele não se refere apenas à forma física do rosto e, sim, tudo o que o envolve. O próprio Lévinas sugere que “o homem contemporâneo saia da totalidade do ser em si mesmo e se abra ao outro”.  É preciso manter em mente que este “outro” é alguém a ser respeitado.

Pense com seus botões. Como você começa a se relacionar com alguém? Seja essa relação pessoal ou profissional, alguma coisa positiva é o gatilho para o início. Há quem diga que escolheu determinado fornecedor por ter gostado do seu jeito, por ter sentido confiança, por seus santos terem batido. Ao meu ver, essa primeira impressão revela valores muito importantes, pois, se sentimos confiança no trabalho de alguém, como é possível que do dia para a noite essa confiança não conte na hora do descarte?

Se você conhece alguém e de cara se simpatiza com essa pessoa, por que diabos, do nada essa simpatia toda vai pro espaço? Por que a gente continua descartando as relações dessa maneira? Das duas, uma: ou mentimos para nós mesmos sobre a primeira impressão que temos de alguém ou simplesmente não respeitamos o que essa pessoa significa. Não respeitamos o trabalho que foi feito.

Não respeitamos nem mesmo o que sentimos por essa pessoa e o que ela nos fez sentir. E não respeitar é grave demais.

Eu não sei vocês, mas eu quando escolho um parceiro profissional, faço o que a maioria faz: busco referências. Passada essa fase, vou conhecer pessoalmente o cidadão que trabalhará comigo. E esse conhecer é crucial para selar uma parceria. A marca pode nem ser tão forte assim, mas, se a pessoa se mostrar humana e além de uma marca, o negócio está fechado. Afinal, por trás de marcas, há pessoas. Quem faz as marcas são pessoas, e são estas que devem ser respeitadas. Há uma equipe que se dedicou às entregas. A gente respeita marca na hora de fazer aplicação, há regras para isso. Mas o que fazemos com as pessoas por trás dessas marcas? Por que não levamos tão a sério o respeito pelas pessoas como levamos um brand book?

O cenário econômico turbulento que estamos vivendo contribuiu ainda mais para gente praticar o desrespeito. Deveria ser o contrário. Falo com base no que eu tenho visto. As empresas têm tentado chegar a um denominador comum quando se fala em relações de negócios. No fim do dia, está difícil para todo mundo. Por que então, quando as parcerias são fechadas, não se pensam duas vezes antes de encerrá-las?

Entendam que aqui não digo que as coisas devem ser eternas e que, uma vez um contrato firmado, ele nunca poderá ser encerrado. Nada disso. Eu realmente acredito que tudo é cíclico. Até as pessoas são. Poucas delas ficam a vida inteira na vida da gente. Mas o fato de ser cíclico não quer dizer que deva terminar sem o devido respeito. 

Para escolher parceiros na vida, amigos e colegas, a lógica é a mesma. Sempre há algum fato especial que vai mudar a cor daquela pessoa para você. Todos começam cinzas, neutros. De repente, uma opinião, um gosto musical, uma posição política, gosto por animais ou uma comida predileta em comum transforma esse cinza em colorido. Pronto!  A gente se sente bem em ter encontrado alguém com cores para dividir. Por que nos esquecemos então? Por que, do nada, a cor se perde e a gente simplesmente apaga?

Ei, psiu, há um outro que deve ser considerado. Há alguém que se encantou pelas tuas cores e cedeu as dela pra ti também. Há pessoas. E pessoas precisam e devem ser respeitadas.

Ciclos se encerram. Convivências terminam. Parcerias acabam. Contratos vencem. Mas a maneira como colocamos fim nas coisas diz muito sobre o que elas significaram para gente. Diz muito mais sobre nós do que imaginamos.

Aproveite este finzinho de ano pra pensar nisso. Coloque nas resoluções vindouras o respeito como meta. Mas respeite as tuas resoluções. Respeite o teu trabalho. Respeite os teus clientes. Respeite a tua família. Respeite teus fornecedores. Respeite os teus amigos. Respeite quem te ajuda. Respeite-se. Pare de descartar pessoas e possibilidades. Apenas pare.

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