Seu presente é um “hoje” travestido de passado. Aceite

Dizem que o primeiro passo para entender o que se passa no presente é olhar com atenção para perguntas que foram respondidas no passado e, por que não, também para aquelas que continuam sem resposta até agora. Afinal, mais do que influenciar as decisões que tomamos hoje, dirão os psicanalistas de plantão, o que vivemos ou quisemos ontem tem grandes chances de se repetir travestidamente (isto é: em forma diferente, talvez, mas conservando a mesma essência). É como se estivéssemos eternamente fadados a perseguir aquilo que nos fez felizes um dia - ou tristes, né, no caso dos masoquistas de profissão. 


E antes que me diga que estou assistindo muito “Black Mirror” (Netflix) ou caindo na armadilha de uma “Matrix” qualquer, eu reafirmo: você é mais passageiro do que motorista das suas próprias emoções. E vou além: muitas vezes, nem mesmo te deixam sentar na janelinha [e engole o choro, por favor].  


Das estações do ano ao nosso relógio biológico, estamos condicionados a um mundo que traz mais do mesmo, mesmo! Mesmo que de maneiras diferentes. A velha máxima “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, dita pelo francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), considerado o “pai da química moderna”, encontra abrigo nesse nosso mundo recheado de ciclos. A palavra “ciclo”, falando nisso, vem do grego “kýklos”. O dicionário diz que se trata de uma série de fenômenos que se renovam de forma constante.


Sim, “requentar” está na natureza do ser humano. Só somos imprevisíveis mesmo para aqueles que preferem fechar os olhos diante dos nossos ‘spoilers’ diários e inconscientes.


Nossos enredos pouco surpreendentes são um prato cheio para as indústrias capitalistas, de onde surgem “profetas” munidos daquelas, vocês sabe bem, famosas tendências – de moda, de mercado, de comportamento e por aí vai, até perdermos elas de vista. O dicionário explica que tendência é “aquilo que leva alguém a seguir um determinado caminho ou a agir de certa forma; predisposição, propensão. Disposição natural; inclinação, vocação”.    


A previsibilidade humana e sua mania de encontrar morada em referências do passado garante lucro até mesmo para o mercado financeiro. Você sabia, por exemplo, que investidores da Bolsa de Valores se balizam muito na chamada “análise técnica” na hora de vender e comprar ações? Em outras palavras, eles ficam de olho nas altas e baixas dos gráficos, conseguindo assim identificar os padrões transmitidos por compradores e vendedores – afinal, são estes que ditam o ritmo de preços do mercado de ações. Torna-se possível, desta maneira, compreender qual o cenário provável para o futuro próximo. 


Nesse jogo de cartas marcadas, tomar consciência do que acontece nos bastidores pouco muda as nossas predisposições. E quem disse que precisamos mudar alguma coisa, não é mesmo?!


Antes de tudo, o que vale mesmo é ter isso em mente para ler a nós mesmos nos muitos papéis que assumimos por aí – de funcionário paciente a consumidor impulsivo (quem nunca, né?!). Importa também que saibamos: nossas primaveras, verões, outonos e invernos não duram pra sempre, mas são igualmente especiais; são partes de ciclos que chegam e logo se dissipam, abrindo espaço para quem nos tornaremos na página seguinte. “Alguém” que, certamente, muitos já sabem como será. 


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